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Transcript excerpt · Portuguese (Brazil)

Tradutor: Maurício Kakuei Tanaka

Oi, pessoal.

Hoje quero falar sobre imaginação e teatro.

No último ano, venho interpretando a Matilda

no Cambridge Theatre, no West End de Londres.

O teatro tem 1.249 lugares

e fica praticamente lotado todas as noites.

“Matilda” é baseada no livro de Roald Dahl,

e muitos de vocês já devem conhecer a história.

É sobre uma garotinha corajosa

que, mesmo sofrendo nas mãos dos próprios pais,

usa a inteligência, a coragem e a magia para assumir o controle da própria vida.

Pois essa Matilda sou eu, ao lado de outras três meninas incríveis.

Nós quatro nos revezamos no papel principal, o que é maravilhoso,

mas chegar até aqui não foi nada simples.

Passei por seis etapas de testes,

duas vezes.

A primeira foi na primavera de 2024.

Cheguei até a última fase,

mas então peguei uma gripe muito forte.

Não conseguia cantar, não conseguia atuar.

Precisei parar.

Seis meses depois,

tive de passar por todo o processo de novo.

E veio a parte mais difícil:

esperar.

Foram quatro semanas sem saber.

Pareciam quatro anos.

Até que, finalmente, um dia o telefone tocou.

Eu tinha conseguido o papel.

Eu não sabia se ria ou chorava.

Então fiz as duas coisas ao mesmo tempo.

Mas tem uma coisa que preciso contar.

Minha história com “Matilda” vem de longe.

Muito antes dos testes.

Muito antes de tudo isso.

Comecei a assistir ao filme “Matilda”, de 1996,

quando tinha apenas três anos.

Via o filme sem parar.

Eu ficava bem quietinha,

olhando fixamente para os objetos da casa e tentando fazê-los se mexer.

Quando finalmente subi ao palco de verdade no Cambridge Theatre,

já conseguia fazer coisas com os olhos...

bom, depois de sete anos encarando xícaras.

Depois vieram três meses de ensaios intensivos.

Cada passo, cada fala, cada movimento,

repetidos vezes e mais vezes, até eu não precisar mais pensar neles.

Todo o elenco e os preparadores foram muito pacientes.

Sinceramente, mereciam medalhas.

Mas, em algum momento durante todas aquelas horas, algo mudou.

Parei de tentar encontrar a Matilda

porque percebi que ela sempre esteve dentro de mim.

Era a menina com quem eu sonhava desde os três anos.

Eu não me tornei ela.

Apenas finalmente a deixei sair.

O teatro é um mundo à parte.

Tem luzes, paredes pintadas, molduras de janelas, carteiras e balanços.

E tem uma biblioteca onde posso mergulhar nos meus livros

e encontrar a querida Phelps me esperando.

Está lá a gentil Honey

e, ali, diante da televisão com meu irmão,

estão meus pais, bastante insuportáveis.

E, em algum lugar, escondida nas sombras,

está a assustadora Trunchbull.

Toda noite, antes de o espetáculo começar,

fico nos bastidores me preparando.

Penso na vida da Matilda,

no amor pelos livros, no ódio aos valentões

e na coragem de encontrar o próprio jeito de reagir.

Respiro fundo, solto o ar

e entro em cena.

E, quando estou sob a luz dos refletores, eu sou ela.

Tenho coragem de enfrentar a Trunchbull

quando ela agarra um menino pelas orelhas.

Grito para ela com todas as minhas forças.

Meu coração bate tão forte que consigo senti-lo.

Quando meu pai rasga meus livros,

sei que sou resistente

e que vou dar o troco.

Colo o chapéu dele na cabeça,

pinto seu cabelo de verde.

Toda vez, um sorriso surge no meu rosto.

Adoro ficar em cima do suporte de livros durante “Quiet”.

Tudo fica imóvel, tudo fica em silêncio.

Mas meu coração dispara

enquanto sinto toda a raiva da Matilda explodindo através dos meus olhos.

Mas as coisas nem sempre saem como planejamos.

No palco, não é diferente.

Certa noite, na cena em que abraço a Honey

porque ela me ofereceu algo que ninguém jamais tinha me dado, gentileza,

eu a abracei com muita força.

Bem, naquele instante, a Trunchbull entrou em cena.

Nós deveríamos nos afastar imediatamente,

mas não conseguimos,

porque meu cabelo tinha ficado completamente enroscado no colar dela.

Um segundo. Dois segundos.

Cinco segundos de palco parecem uma eternidade, podem acreditar.

Mas ninguém entrou em pânico.

Mantivemos a calma. Continuamos dentro da cena.

Bem devagarinho, nos soltamos.

Perdi alguns fios de cabelo, e Honey perdeu um colar,

mas seguimos em frente.

A plateia não percebeu nada.

Por sorte, a Trunchbull também não nos pegou.

Percebem? O palco e a vida não são tão diferentes assim,

porque imaginar não é fugir do mundo real.

É uma forma de construir um mundo.

Quando nossas imaginações se unem,

cada personagem naquele palco ganha vida.

O elenco, a equipe e cada pessoa da plateia

entram nessa.

É aí que a verdadeira magia acontece.

Olho para a frente e vejo o brilho no rosto de vocês.

Vejo sorrisos. Vejo lágrimas.

Ouço vocês aplaudindo tão forte,

como se nunca quisessem sair do mundo da Matilda.

E, sinceramente, eu também não quero.

Mas, nesse momento, eu só queria dar um abraço bem apertado em cada um de vocês

e dizer: a Matilda ama todos vocês.

Obrigada.